PESQUISA NA ESCOLA:
QUE ESPAÇO É ESSE? O DO CONTEÚDO OU O DO PENSAMENTO CRÍTICO?
Maria Otilia
Guimarães Ninin* PUC-COGEAE / UNIP-SP / CNSD-SP
Educação em Revista,
Belo Horizonte n. 48, Dez 2008
Resenha: Roseli Silva
Minzon
Essa resenha foi descrita
com base no artigo Pesquisa na Escola: que espaço é esse? O do conteúdo ou o do
pensamento crítico de Maria Otilia Guimarães Ninin, que tem como eixo
fundamental a concepção de ensino na perspectiva da pedagogia crítica,
competências e habilidades relacionadas aos quatro pilares da educação:
aprender a fazer, aprender a ser, aprender a conviver, aprender a aprender, o
referente artigo pretende dar subsídios para a pesquisa em sala de aula.
Vale anotar que a
persistência, tão frequente entre nós, de modismos, como o do construtivismo ou
da qualidade total, apenas confirma a precariedade em termos de competência, já
que o competente se nega, terminantemente, a substituir a proposta própria por
coisas vindas apressadamente de fora ou de cima para baixo (NINIM, 2008, p.18).Quem
tem a competência de mudar, muitas vezes cai na passividade, no comodismo de
deixar como estar, não podemos deixar a pesquisar virar apenas modismo, pois a
pesquisa não pode ser passageira na aquisição de conhecimento do aluno.
Sabe-se que há uma
fragilidade de práticas educativas inovadoras, há uma linha muito tênue entre
inovar e “bagunçar”, e muitas vezes o professor por medo de “virar bagunça”,
acaba por continuar nos mesmo modelos tradicionais de educação, muitos se
fecharam em uma redoma cheia de expectativas e angústias em relação as mudanças
no processo de aprendizagem, muitos querem mudar, fazer parte desse processo de
transformação mas não veem como fazer isso.
Por isso o propósito deste
artigo é de oferecer aos docentes novos caminhos que os auxiliem na tarefa de
orientar alunos em relação ao ato de pesquisar. Nessa direção, Ninin pretende
conceituar pesquisa a partir de uma visão crítica.
Mais do que o ensino, a
aplicação da pesquisa na escola conduz ao domínio das habilidades didáticas
renovadoras pela discussão, pela leitura, pela observação, pela coleta de dados
para comprovação de conjecturas sobre os fatos pela análise criativa das
deduções, conclusões e, sobretudo, pela reconstrução do conhecimento a partir
daquilo que os alunos já sabem. (NINIM, 2008, p. 20).
A pesquisa para os alunos da
Educação Básica tem que se apresentar de uma maneira amena, natural e o
professor tem que ser um parceiro do aluno neste processo de aprendizagem e
oferecer indicações diversas que suscitem a curiosidade dos alunos em busca do
saber.
Nesse sentido, podemos
definir “pesquisa escolar” como atividade sistematizada e mediada entre
sujeitos, pautada em instrumentos que propiciam a construção do conhecimento e
o desenvolvimento da autonomia, por meio de ações com características de
reflexão crítica, que priorizam descobrir, questionar, analisar, comparar,
criticar, avaliar, sintetizar, argumentar, criar. (NININ, 2008, p. 21)
Se formos procurar o
significado da palavra autonomia, encontrará dentre tantos: Aptidão
ou competência para gerir sua própria vida, valendo-se de seus próprios meios,
vontades e/ou princípios (dicionário Aurélio). Precisa-se “viver a própria vida”, parece estranho essa frase, afinal é
a nossa vida que temos para viver, mas quando nos encontramos em um sistema
fechado, onde a todo momento nos falam o que temos que fazer, acabamos por
viver a vida do outro, de quem manda e não a nossa, com as nossas vontades,
escolhas, acabamos não sendo responsável por nós mesmos, afinal não temos
autonomia alguma para viver a nossa vida.
Demo (1992, p. 2), afirma sobre pesquisa na
escola: A pesquisa na escola é uma maneira de educar e uma estratégia que
facilita a educação (...) e a consideramos uma necessidade da cidadania
moderna. (...) Educar pela pesquisa é um enfoque propedêutico, ligado ao
desafio de construir a capacidade de reconstruir, na educação básica e superior
(...) A pesquisa persegue o conhecimento novo, privilegiando com seu método, o
questionamento sistemático crítico e criativo. (NININ, 2008, p.21).
Precisa-se urgentemente ultrapassar o saber superficial pautado
no acúmulo de informações, isso não levará nossos alunos a nada, darei um
exemplo superficial, mas quem expressará muito bem a frase anterior: por
exemplo, se fomos analisar as adolescentes de 10 à 15 anos, todas tem a
informação que se tiverem relação sexual sem o uso de métodos anticoncepcionais
irão engravidar? Acredita-se que a grande maioria sim, mas porque mesmo assim a
cada ano cresce o número de adolescentes grávidas? A informação elas têm.
Acontece que não basta apenas ter informações, é o uso que você faz daquilo que
você sabe, se não for de interesse meu, não irá me acrescentar em absolutamente
nada na minha vida. Agora imaginem uma sala de aula, com seis aulas diárias, a
gama de informações perdidas que não existe.
Em relação a pesquisa, Ninin
deixa claro que não devemos nos preocupar como o resultado da pesquisa em si,
mas o processo, esse sim é o mais importante, o caminho que o aluno percorre
com a pesquisa, essa irá se modificando no decorrer do processo e se articulará
com outras áreas do conhecimento, a pesquisa faz parte de toda a grade
curricular de qualquer escola, descobrir,
questionar, analisar, comparar, criticar, avaliar, sintetizar, argumentar,
criar.
Para Ninin (p.23, 2008), a
pesquisa é, então, entendida como um instrumento problematizador que, quando
planejada e mediada pelo professor, faz do aluno-copiador um aluno-pesquisador.
A questão é que muitas vezes pela quantidade de informações, os professores veem-se
despreparados para orientar seus alunos em relação à tarefa de pesquisar.
O “fazer pesquisa” provoca
transformações no aluno, em direção à construção da autonomia para pensar. “Na
medida que o aluno pesquisador aprende a duvidar, questionar, argumentar,
fundamentar, ouvir o outro com atenção e responder, convencer sem vencer, não
só faz conhecimento, como principalmente, se forma”. Mas, para aprender tudo
isso, é preciso um professor que instigue o aluno a duvidar do que encontra na
internet, por exemplo; é preciso um professor que responda perguntas com outras
perguntas (NININ, 2008, p. 25,).
Esse é o real papel do
professor do século XXI, o professor mediador que instigue o aluno a pesquisar,
a problematizar e não que tenha respostar prontas e acabadas para todas as perguntas,
dúvidas que o aluno possa ter, não é dar respostas e sim meios para que o
próprio aluno busque “suas verdades” de acordo com o contexto e a época a qual
se encontre, frisando que nenhuma mentira ou verdade seja absoluta, tudo é
relativo, e a única certeza que podemos dar aos alunos, ao professor
compreender o processo de pesquisa e sua relação com a aprendizagem dos alunos.
Segundo Ninin (2008, p.26),
o questionamento, que busca o desenvolvimento do sujeito crítico,
historicamente situado, o professor não poderá seguir modelos convencionais de
trabalho, mas terá de planejar momentos de intervenções precisas e
sistematizadas junto aos seus alunos. Para questionar o aluno, no entanto, o
professor precisa de elementos teóricos que o auxiliem a elaborar perguntas
capazes de trazer à tona os conhecimentos prévios de cada um sobre o tema
proposto e aí está o ponto de partida.
A pesquisa de um grupo não
será igual à de outro, e é isso que aprofunda a aprendizagem, a troca de
experiências, o olhar diferente para o mesmo problema. Nessa perspectiva, a
pesquisa se desenvolve na individualidade do grupo de alunos, a partir dos
elementos que, para cada grupo específico, constituem-se fatores de dúvida,
curiosidade, inovação, encantamento. (NININ, 2008, p.26,). Isso exigirá grupos
com diferentes habilidades e grupos com habilidades similares, para trabalharem
em coletivo, respeitando as diferenças de cada indivíduo, por isso que haverá
critérios que nem sempre privilegiaram as afinidades entres os alunos muito
pelo contrário.
Passos para a organização da
pesquisa:
- Organização do grupo de trabalho: grupos
com diferentes habilidades, grupos similares, com conhecimentos prévios
semelhantes, diversidade de conhecimentos prévios, dependendo a proposta do professor;
- Projeto preliminar de pesquisa: o que
pretende investigar, lançar para frente as ideias, a mediação do professor
nesta fase é fundamental;
- Elaborar textos preliminares: produção de
textos científicos, objetivos explícitos; - Leitura dos textos selecionados,
elaboração dos fichamentos (isso deve acontecer em todo o processo do projeto);
- Leitura de textos
selecionados: leitura e socialização de textos sobre o tema da pesquisa;
- Reelaboração dos textos
produzidos: sempre sob a orientação do professor, o que o aluno poderá
aprimorar no trabalho textual;
- Organização final da
pesquisa: dividir tarefas de maneira equilibrada, cada um com suas
responsabilidades em todo o processo;
- Apresentação pública do
trabalho de pesquisa: professor discutir muito bem com os alunos quais serão os
critérios para a apresentação.
Em todas as etapas acima a
participação do professor como mediador é fundamental para o processo de
aprendizagem através de projetos, incentivando-os, orientando-os,
reorientando-os, apontando possíveis caminhos para que o conhecimento se
efetive.
Segundo Ninin (2008, p.31), a pesquisa é aqui
considerada um projeto permanente do aluno no decorrer das práticas educativas
com as quais está envolvido em sala de aula. Se pensarmos na pesquisa como
fator de desenvolvimento do aluno, não se faz necessária a nota, mas torna-se
relevante descobrir como o aluno se desenvolve ao longo do trabalho realizado.
Nesta fase ao qual nos
encontramos, não podemos descartar os recursos tecnológicos, eles são
fundamentais para obtenção de informações, não possuí-los pode ser considerada
uma limitação no trabalho com pesquisas (Ninin, 2008, p. 33).
Avançaríamos, portanto,
nesse sentido, se nos preocupássemos em formar professores nas escolas capazes
de discutir questões éticas relacionadas à pesquisa de seus alunos, no sentido
de expor e criticar as práticas pautadas em cópias e fragmentos de diferentes
autores. (NININ, 2008, p.33).
Assim, alunos e professores
sairiam da situação de copiadores, da simples repetição, para autores, sem medo
de escrever, é assim que a aprendizagem irá acontecer de fato, começando de uma
forma ou de outra a escrever, a ser autor de seus próprios conhecimentos, tanto
professor como aluno, juntos, coletivamente.
Para Ninin (2008, p.34),
isso exige do professor conhecimento consciente e deliberado, além de alto grau
de comprometimento em relação ao seu papel de intervenção permanente no
desenvolvimento do educando.
Contudo, deve-se tomar cuidado para que a
pesquisa não seja uma mera cópia da internet, o aluno antes de ser um
pesquisador deve aprender a pesquisar, e para isso primeiramente precisamos ler
e vivenciar a realidade que o cerca, salientar que não é a pesquisa em si que
faz o aluno aprender, mas o processo pelo qual o aluno passa para realizar a
pesquisa, o aluno não pode apenas reproduzir, ele tem que criar, inovar,
questionar, assim como o professor. Não
é o que se pede como pesquisa, mas como se pede, ampliar a pesquisa para que o
aluno possa correlaciona-la com outras situações e não simplesmente copiar, o
aluno deve aprender a conhecer, fazer, conviver e ser e isso se dará mediado
pelo professor trabalhando coletivamente, respeitando as diferenças e
instigando sempre a busca de novos saberes.
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