quinta-feira, 10 de agosto de 2017

PESQUISA NA ESCOLA: QUE ESPAÇO É ESSE? O DO CONTEÚDO OU O DO PENSAMENTO CRÍTICO?

PESQUISA NA ESCOLA: QUE ESPAÇO É ESSE? O DO CONTEÚDO OU O DO PENSAMENTO CRÍTICO? 
Maria Otilia Guimarães Ninin* PUC-COGEAE / UNIP-SP / CNSD-SP
Educação em Revista, Belo Horizonte n. 48, Dez 2008

Resenha: Roseli Silva Minzon

Essa resenha foi descrita com base no artigo Pesquisa na Escola: que espaço é esse? O do conteúdo ou o do pensamento crítico de Maria Otilia Guimarães Ninin, que tem como eixo fundamental a concepção de ensino na perspectiva da pedagogia crítica, competências e habilidades relacionadas aos quatro pilares da educação: aprender a fazer, aprender a ser, aprender a conviver, aprender a aprender, o referente artigo pretende dar subsídios para a pesquisa em sala de aula.
Vale anotar que a persistência, tão frequente entre nós, de modismos, como o do construtivismo ou da qualidade total, apenas confirma a precariedade em termos de competência, já que o competente se nega, terminantemente, a substituir a proposta própria por coisas vindas apressadamente de fora ou de cima para baixo (NINIM, 2008, p.18).Quem tem a competência de mudar, muitas vezes cai na passividade, no comodismo de deixar como estar, não podemos deixar a pesquisar virar apenas modismo, pois a pesquisa não pode ser passageira na aquisição de conhecimento do aluno.
Sabe-se que há uma fragilidade de práticas educativas inovadoras, há uma linha muito tênue entre inovar e “bagunçar”, e muitas vezes o professor por medo de “virar bagunça”, acaba por continuar nos mesmo modelos tradicionais de educação, muitos se fecharam em uma redoma cheia de expectativas e angústias em relação as mudanças no processo de aprendizagem, muitos querem mudar, fazer parte desse processo de transformação mas não veem como fazer isso.
Por isso o propósito deste artigo é de oferecer aos docentes novos caminhos que os auxiliem na tarefa de orientar alunos em relação ao ato de pesquisar. Nessa direção, Ninin pretende conceituar pesquisa a partir de uma visão crítica.
Mais do que o ensino, a aplicação da pesquisa na escola conduz ao domínio das habilidades didáticas renovadoras pela discussão, pela leitura, pela observação, pela coleta de dados para comprovação de conjecturas sobre os fatos pela análise criativa das deduções, conclusões e, sobretudo, pela reconstrução do conhecimento a partir daquilo que os alunos já sabem. (NINIM, 2008, p. 20).
A pesquisa para os alunos da Educação Básica tem que se apresentar de uma maneira amena, natural e o professor tem que ser um parceiro do aluno neste processo de aprendizagem e oferecer indicações diversas que suscitem a curiosidade dos alunos em busca do saber.
Nesse sentido, podemos definir “pesquisa escolar” como atividade sistematizada e mediada entre sujeitos, pautada em instrumentos que propiciam a construção do conhecimento e o desenvolvimento da autonomia, por meio de ações com características de reflexão crítica, que priorizam descobrir, questionar, analisar, comparar, criticar, avaliar, sintetizar, argumentar, criar. (NININ, 2008, p. 21)
Se formos procurar o significado da palavra autonomia, encontrará dentre tantos: Aptidão ou competência para gerir sua própria vida, valendo-se de seus próprios meios, vontades e/ou princípios (dicionário Aurélio). Precisa-se “viver a própria vida”, parece estranho essa frase, afinal é a nossa vida que temos para viver, mas quando nos encontramos em um sistema fechado, onde a todo momento nos falam o que temos que fazer, acabamos por viver a vida do outro, de quem manda e não a nossa, com as nossas vontades, escolhas, acabamos não sendo responsável por nós mesmos, afinal não temos autonomia alguma para viver a nossa vida.
 Demo (1992, p. 2), afirma sobre pesquisa na escola: A pesquisa na escola é uma maneira de educar e uma estratégia que facilita a educação (...) e a consideramos uma necessidade da cidadania moderna. (...) Educar pela pesquisa é um enfoque propedêutico, ligado ao desafio de construir a capacidade de reconstruir, na educação básica e superior (...) A pesquisa persegue o conhecimento novo, privilegiando com seu método, o questionamento sistemático crítico e criativo. (NININ, 2008, p.21).
Precisa-se urgentemente ultrapassar o saber superficial pautado no acúmulo de informações, isso não levará nossos alunos a nada, darei um exemplo superficial, mas quem expressará muito bem a frase anterior: por exemplo, se fomos analisar as adolescentes de 10 à 15 anos, todas tem a informação que se tiverem relação sexual sem o uso de métodos anticoncepcionais irão engravidar? Acredita-se que a grande maioria sim, mas porque mesmo assim a cada ano cresce o número de adolescentes grávidas? A informação elas têm. Acontece que não basta apenas ter informações, é o uso que você faz daquilo que você sabe, se não for de interesse meu, não irá me acrescentar em absolutamente nada na minha vida. Agora imaginem uma sala de aula, com seis aulas diárias, a gama de informações perdidas que não existe.
Em relação a pesquisa, Ninin deixa claro que não devemos nos preocupar como o resultado da pesquisa em si, mas o processo, esse sim é o mais importante, o caminho que o aluno percorre com a pesquisa, essa irá se modificando no decorrer do processo e se articulará com outras áreas do conhecimento, a pesquisa faz parte de toda a grade curricular de qualquer escola, descobrir, questionar, analisar, comparar, criticar, avaliar, sintetizar, argumentar, criar.
Para Ninin (p.23, 2008), a pesquisa é, então, entendida como um instrumento problematizador que, quando planejada e mediada pelo professor, faz do aluno-copiador um aluno-pesquisador. A questão é que muitas vezes pela quantidade de informações, os professores veem-se despreparados para orientar seus alunos em relação à tarefa de pesquisar.

O “fazer pesquisa” provoca transformações no aluno, em direção à construção da autonomia para pensar. “Na medida que o aluno pesquisador aprende a duvidar, questionar, argumentar, fundamentar, ouvir o outro com atenção e responder, convencer sem vencer, não só faz conhecimento, como principalmente, se forma”. Mas, para aprender tudo isso, é preciso um professor que instigue o aluno a duvidar do que encontra na internet, por exemplo; é preciso um professor que responda perguntas com outras perguntas (NININ, 2008, p.  25,).
Esse é o real papel do professor do século XXI, o professor mediador que instigue o aluno a pesquisar, a problematizar e não que tenha respostar prontas e acabadas para todas as perguntas, dúvidas que o aluno possa ter, não é dar respostas e sim meios para que o próprio aluno busque “suas verdades” de acordo com o contexto e a época a qual se encontre, frisando que nenhuma mentira ou verdade seja absoluta, tudo é relativo, e a única certeza que podemos dar aos alunos, ao professor compreender o processo de pesquisa e sua relação com a aprendizagem dos alunos.
Segundo Ninin (2008, p.26), o questionamento, que busca o desenvolvimento do sujeito crítico, historicamente situado, o professor não poderá seguir modelos convencionais de trabalho, mas terá de planejar momentos de intervenções precisas e sistematizadas junto aos seus alunos. Para questionar o aluno, no entanto, o professor precisa de elementos teóricos que o auxiliem a elaborar perguntas capazes de trazer à tona os conhecimentos prévios de cada um sobre o tema proposto e aí está o ponto de partida.
A pesquisa de um grupo não será igual à de outro, e é isso que aprofunda a aprendizagem, a troca de experiências, o olhar diferente para o mesmo problema. Nessa perspectiva, a pesquisa se desenvolve na individualidade do grupo de alunos, a partir dos elementos que, para cada grupo específico, constituem-se fatores de dúvida, curiosidade, inovação, encantamento. (NININ, 2008, p.26,). Isso exigirá grupos com diferentes habilidades e grupos com habilidades similares, para trabalharem em coletivo, respeitando as diferenças de cada indivíduo, por isso que haverá critérios que nem sempre privilegiaram as afinidades entres os alunos muito pelo contrário.
Passos para a organização da pesquisa:
  - Organização do grupo de trabalho: grupos com diferentes habilidades, grupos similares, com conhecimentos prévios semelhantes, diversidade de conhecimentos prévios, dependendo a proposta do professor;
 - Projeto preliminar de pesquisa: o que pretende investigar, lançar para frente as ideias, a mediação do professor nesta fase é fundamental;
 -  Elaborar textos preliminares: produção de textos científicos, objetivos explícitos; - Leitura dos textos selecionados, elaboração dos fichamentos (isso deve acontecer em todo o processo do projeto);
- Leitura de textos selecionados: leitura e socialização de textos sobre o tema da pesquisa;
- Reelaboração dos textos produzidos: sempre sob a orientação do professor, o que o aluno poderá aprimorar no trabalho textual;
- Organização final da pesquisa: dividir tarefas de maneira equilibrada, cada um com suas responsabilidades em todo o processo;
- Apresentação pública do trabalho de pesquisa: professor discutir muito bem com os alunos quais serão os critérios para a apresentação.
Em todas as etapas acima a participação do professor como mediador é fundamental para o processo de aprendizagem através de projetos, incentivando-os, orientando-os, reorientando-os, apontando possíveis caminhos para que o conhecimento se efetive.
 Segundo Ninin (2008, p.31), a pesquisa é aqui considerada um projeto permanente do aluno no decorrer das práticas educativas com as quais está envolvido em sala de aula. Se pensarmos na pesquisa como fator de desenvolvimento do aluno, não se faz necessária a nota, mas torna-se relevante descobrir como o aluno se desenvolve ao longo do trabalho realizado.
Nesta fase ao qual nos encontramos, não podemos descartar os recursos tecnológicos, eles são fundamentais para obtenção de informações, não possuí-los pode ser considerada uma limitação no trabalho com pesquisas (Ninin, 2008, p. 33).
Avançaríamos, portanto, nesse sentido, se nos preocupássemos em formar professores nas escolas capazes de discutir questões éticas relacionadas à pesquisa de seus alunos, no sentido de expor e criticar as práticas pautadas em cópias e fragmentos de diferentes autores. (NININ, 2008, p.33).
Assim, alunos e professores sairiam da situação de copiadores, da simples repetição, para autores, sem medo de escrever, é assim que a aprendizagem irá acontecer de fato, começando de uma forma ou de outra a escrever, a ser autor de seus próprios conhecimentos, tanto professor como aluno, juntos, coletivamente.
Para Ninin (2008, p.34), isso exige do professor conhecimento consciente e deliberado, além de alto grau de comprometimento em relação ao seu papel de intervenção permanente no desenvolvimento do educando.

Contudo, deve-se tomar cuidado para que a pesquisa não seja uma mera cópia da internet, o aluno antes de ser um pesquisador deve aprender a pesquisar, e para isso primeiramente precisamos ler e vivenciar a realidade que o cerca, salientar que não é a pesquisa em si que faz o aluno aprender, mas o processo pelo qual o aluno passa para realizar a pesquisa, o aluno não pode apenas reproduzir, ele tem que criar, inovar, questionar, assim como o professor. Não é o que se pede como pesquisa, mas como se pede, ampliar a pesquisa para que o aluno possa correlaciona-la com outras situações e não simplesmente copiar, o aluno deve aprender a conhecer, fazer, conviver e ser e isso se dará mediado pelo professor trabalhando coletivamente, respeitando as diferenças e instigando sempre a busca de novos saberes.

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